Olá gente querida, paz e bem!
Estou estreando aqui no P&F e para iniciar minhas postagens, resolvi publicar um artigo, de minha autoria, que trata da dimensão sócio-econômica na visão franciscana. Farei isto em dois posts, para não se tornar algo muito longo e cansativo. Belezinha então? Ah, e aguardo o feedback de vocês... Boa leitura!
Jackson Barbosa, OFMCap.
1 - Introdução
No atual ambiente
de mudanças, em que estão sempre presentes a concorrência e a competitividade,
exige-se das empresas uma busca cada vez maior de aumento de eficiência
operacional e de desenvolvimento de novas competências (BRASILEIRO NETO;
FREITAS; NOVAES, 2003).
Em contraponto a afirmação acima, alternativas são estudadas e em alguns casos, aperfeiçoadas, para mostrar que a realidade de uma nova forma de produção e associação é possível e intimamente ligada à proposta franciscana.
2 - Sobre o
trabalho franciscano e as posses
Muitos amigos de
Francisco de Assis, antes de deixarem suas casas e respectivas famílias, eram
de condições sociais semelhantes ou até superior a do jovem Bernardone. Alguns,
nunca precisaram se submeter ao trabalho forçado, assim como a classe
trabalhadora da época.
Francisco e seus
companheiros deveriam viver do fruto do próprio serviço. Assim, um homem
naquela cidade se fazia valer, conquistando o respeito, como todos os outros
habitantes da cidade.
No momento em que
um grupamento humano elabora e adota uma noção de trabalho, diferente daquela
em vigor, estes liberam seus membros das estruturas alienantes do
relacionamento de produção deste sistema (FLOOD, 1986).
Para os primeiros
frades, o trabalho era visto como uma simples ocupação do dia-a-dia.
Francisco, afirma em seus escritos, na Regra não-bulada (2009, p. 144) que:
Todos os
irmãos, em quaisquer lugares em que estiverem para servir ou trabalhar em casa
de outros, não sejam nem tesoureiros nem despenseiros nem tenham cargo de
direção nas casas em que servem; nem aceitem algum ofício que provoque
escândalo ou que cause dano à sua alma
(cf. Mc 8, 36); mas sejam os menores e submissos a todos que estão na mesma casa.
“Não aceitando
estes convites, Francisco e seus amigos rechaçaram a idéia que poderiam ter a
pessoas de que eles compreendiam o trabalho como todo mundo. Com esta recusa os
frades estavam mostrando que não queriam ser como “todo mundo” de Assis”
(FLOOD, 1986).
Os
frades desenvolvem uma economia de subsistência e de serviço. A partir daí,
encaram a função do trabalho.
Francisco e seus irmãos dispunham dos bens necessários à vida. O mito sobre a pobreza de Francisco começou muito cedo (FLOOD, 1986).
Segundo Flood (1986), Francisco e seus companheiros desenvolveram sua própria base econômica. Não poderiam se permitir o luxo cultural de serem perfeitamente pobres. Dispuseram, portanto, de posses que se impunham. Tinham suas vestes e seus instrumentos de trabalho. Arranjaram, aqui e ali, alguns cantos para moram, onde podiam descansar para recobrar as forças. Tinham aí os utensílios domésticos. Teria sido impossível aceder a um novo modo de vida de outra maneira.
Estes primeiros franciscanos, assim como outros que os sucederam, tiveram, de fato que confiar na providência divina e rezar em suas vidas, verdadeiramente o “Pai Nosso”, principalmente o “pão nosso de cada dia”.
Esta, sendo a segunda parte da mensagem cristã, obedece aos dois impulsos básicos do coração humano: um na direção do Pai, de seu Reino e de sua vontade; o outro na direção do pão necessário, sem o qual não podemos viver, do perdão e a superação de todo o mal que permanentemente nos estigmatiza (BOFF, 2011).
O pão
sintetiza em si o alimento humano. Ele nos revela nossa essencial vinculação à
infraestrutura material da vida. Por mais alto que sejam os vôos do espírito,
por mais profundo que seja o mergulho místico na divina essência, todos nós
dependemos de um pouco de pão e de água que garantem a nossa vida. Um morto não
conhece a mística, nem louva a |Deus. A vida é mais que pão, mas em nenhum
momento pode dispensá-lo. A materialidade possui um caráter sacramental, pois
está ligada à vida. É na infraestrutura que se decide o futuro eterno da vida:
se tivermos dado alimento ao faminto, água ao sedento, roupa ao desnudo. Nesta
solidariedade mínima se joga o destino de todos, feliz ou infeliz (Mt 25,
31-40).
Ao estabelecer o
contraponto Pai Nosso e pão nosso cotidiano, Jesus quis que não houvesse apenas
a causa de Deus – o Reino –, mas também a causa do homem – o Pão –, com sua
necessidades, com sua fome, com suas urgências.
Francisco de Assis percebeu isto, daí o estilo “desprendido” ou austero de vida que levava.
3 - A opção
preferencial pelos pobres
A Igreja Católica
presente na América latina e no caribe, refletiu no ano de 2007, em
Aparecida-SP a ampla preocupação pela dignidade humana, situando-se a
angústia pelos milhões de latino-americanos e latino-americanas que não podem
levar uma vida que corresponda a essa dignidade. A opção preferencial pelos
pobres é uma das peculiaridades que marca a fisionomia da Igreja
latino-americana e caribenha. De fato, João Paulo II, dirigindo-se ao citado
continente, sustentou que “converter-se ao Evangelho, para o povo cristão que
vive na América, significa revisar todos os ambientes e dimensões de sua vida,
especialmente tudo o que pertence à ordem social e à obtenção do bem comum”.
392. Nossa fé proclama que “Jesus Cristo é o rosto humano de Deus e o rosto divino do homem”. Por isso, “a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para nos enriquecer com sua pobreza”. Essa opção nasce de nossa fé em Jesus Cristo, o Deus feito homem, que se fez nosso irmão (cf. Hb 2,11-12). Opção, no entanto, não exclusiva, nem excludente (DOCUMENTO DE APARECIDA, 2007).
395. O Santo Padre nos recorda que a Igreja está convocada a ser “advogada da justiça e defensora dos pobres” diante das “intoleráveis desigualdades sociais e econômicas”, que “clamam ao céu”. Temos muito que oferecer, visto que “não há dúvida de que a Doutrina Social da Igreja é capaz de despertar esperança em meio às situações mais difíceis, porque, se não há esperança para os pobres, não haverá para ninguém, nem sequer para os chamados ricos”. A opção preferencial pelos pobres exige que prestemos especial atenção aos profissionais católicos que são responsáveis pelas finanças das nações, aos que fomentam o emprego, aos políticos que devem criar as condições para o desenvolvimento econômico dos países, a fim de lhes dar orientações éticas coerentes com sua fé (DOCUMENTO DE APARECIDA, 2007).
(Continua...)
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